quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Absolutamente



Não
Eu não quero palavras bonitas
Perfeitas, limpas, nem mesmo as benditas
Quero as exlcuídas
Impuras, proibidas
Essas que tem um cheiro de malditas
Quero as que ficam no oco do silêncio
Que não tem som, nem podem ter
Essas que não dizemos, que são o que nos despe e nos entrega
Isso que fica no vão entre a boca e o ouvido
Quero o fruto, o proibido
Quero o silêncio que dá vida aos delírios
Quero o que me oprime,
O que tira o ar dos pulmões
O que coloca sangue em minhas veias
Quero os contrários do óbvio
O que não faz sentido
Tudo aquilo que me exclui
Não quero a palavra que salva
Não arrisco a salvação, pois que não me cabe
Quero os abismos, as profundezas
Os desencontros da alma
Não preciso estar perto de Deus
Perfeição demais, pois que não me cabe
Preciso é sair de mim, de tudo o que me cerca
Não quero a cerca e suas farpas
Quero integralmente
Quero absolutamente
Com fome, sede, gana e pressa
Conjugar o verbo mais oculto em mim

C.B.

Campos de Trigo















"O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando tiveres me cativado. O trigo que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo..."


(Antoine de Sain-Exupéry em "O Pequeno Príncipe")


Eu não tenho os campos de trigo
E, que possa lembrar, nunca estive em um
Nos caminhos por onde cresci, por onde andei, são outros os frutos da terra
Mas tenho o mesmo vento que um dia soprou sobre o dourado dos grãos
E tenho também o dourado dos teus cabelos
E por eles, sinto a beleza dos campos de trigo
E imagino que o vento que barulha lá fora, já esteve no dourado dos trigos...
E porque me trazem você,
Amo o barulho que ele faz...

C.B.
(Para Caio)

Contradição


Por estar tão só, se fez de vários.
A cada momento era um que lhe fazia afronta,
Lhe dava conforto, lhe fazia chorar enxurradas e sorrir convulsões.
A cada dia era um que queria coisas diferentes, pessoas diferentes,
Comidas diferentes, camas diferentes...
A cada pensamento mudava... de um para o outro,
Tentando alcançar a inteireza de tudo o que não podia ser.
Quando o sol se punha, era a lua.
Quando a noite se ia, era a manhã.
Era contradição de si mesmo,

Querendo ser tudo, sabia ser nada.
Era só quando o dia impunha o vazio de seus espaços,
Quando as luzes ficavam do lado de fora,

Quando as vozes ficavam a distâncias inaudíveis,
É que sua solidão saía de suas sombras
Ocupava seus lugares, suas entranhas,
Suas dores, suas razões tortuosas,
E voltava a ser nenhum.
Era a contradição de ser o mesmo.

C.B.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Isso de Gostar


Tudo na vida é feito que se apaixone...
Que se deslumbre... que se desdobre....
E depois se acostume...
Acostumar-se às paixões não combina... não conjuga...
O movimento de apaixonar-se é incômodo por si...

É instável por si...
E anda em círculos...
Então... como passar pelo nosso tempo ignorando isso de gostar?
É nossa vontade de querer significados à nossa volta...
Pra viver com um pouco de sentido essa vida de vazios...
Ora inteira... ora pela metade...
Ora reta... ora torta...


C.B.
26/05/2008

sábado, 21 de agosto de 2010

Agora que sinto amor



Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou
que uma flor tivesse cheiro.
Agora, sinto o perfume das flores
como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam,
como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração
da parte de trás da cabeça.
Hoje, as flores sabem-me bem
num paladar que se cheira.
Hoje, às vezes acordo
e cheiro antes de ver.
.
Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
(O Pastor Amoroso)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sorri...



Sorri...
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri...
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri...
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri...
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz...

(Djavan)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Mudança Radical

Fiquei pensando sobre essa notícia...
Visua novo agora é retrô?!

Um computador com visual retrô, inspirado em uma televisão da Philco de 1954, garantiu ao estúdio de design SchultzeWORKS um prêmio de uma competição para reinventar o computador pessoal de forma radical. O PC conceitual, que não está a venda, usa o moderno sistema operacional Windows 7 e tem teclas de máquina de escrever. (G1)

O novo reacende o antigo... e o torna novo de novo...
Então não é novo de verdade... Não é novidade?!
É apenas uma velha fogueira que fez da brasa queimada, novo espetáculo de luz...
Será o olhar apenas um filtro por onde o tempo segue no compasso de quem vê?
Não importa quando?










segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Vida


Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é "muito" para ser insignificante.

(Charles Chaplin)



quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sem raiz


Mais uma madrugada que chegou e me encontrou por aqui.
Hoje especialmente há um fantasma rondando em mim que não consigo identificar. O que me tira o sono nem sempre é ruim, mas também quase nunca é bom.
Estive a pensar sobre a relatividade do sabor que a lágrima pode ter. Essas mesmas lágrimas que não consigo deixar cair.
Talvez seja exatamente por isso que elas tenham um pouco do doce e um pouco do sal. Para que sirvam aos dois sabores.
São belas quando caem de felicidade...
São fel quando a dor é o que as derrama...
E eu não consigo nem uma sequer...
A mim parece que nem um dos sentimentos que me tomam sejam merecedores de uma só... fugidia que seja...
Pensamentos medíocres... sentimentos rasos... árvores sem raiz...
A luz do dia que chega não desperta o sol dentro de mim...

CB

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Tempo, tempo, tempo...


tempo, tempo, este ingrato...
sempre junto, sempre longe...
fugindo por entre os nossos vãos
parando por entre os nossos erros
quem disser que não se importa com a passagem do tempo
é porque nunca viveu a paragem das horas...
paralisia que apequena a alma e suprime o som das palavras.
quando tudo passa, menos o que nunca deveria ter chegado...

CB

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Paisagem...




Paisagem
Luiza Possi/Dudu Falcão

De longe na paisagem tudo é tão perfeito
Tudo é tão normal
De perto toda coisa linda mostra algum defeito
E eu me sinto igual

Eu e você descobrimos a pólvora
A diferença nos faz tão bem
Somos os mesmos há milhões de anos
Amantes, errantes, humanos!

Eu guardo as lembranças em fotografias
Tudo é de papel
Se eu já soubesse antes, eu te contaria
Sonhos de aluguel

Eu e você já moramos no mesmo céu
Nossas estrelas combinam...
Fomos os mesmos até hoje de manhã
Seus olhos de mar me fascinam...

E agora me conta o que aconteceu
Que eu ando encostando meus sonhos nos seus...

Eu guardo as lembranças em fotografias
Tudo é de papel
Se eu já soubesse antes, eu te contaria
Sonhos de aluguel

Eu e você já moramos no mesmo céu
Nossas estrelas combinam...
Fomos os mesmos até hoje de manhã
Seus olhos de mar me fascinam...

E agora me conta o que aconteceu
Que eu ando encostando meus sonhos nos seus...


(E eu ando colhendo sonhos nos caminhos feitos pelos passos teus... CB)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Eu vou te contar


Eu vou te contar que você não me conhece.
E eu tenho que gritar isso
Porque você está surdo e não me ouve.
A sedução me escraviza a você.
Ao fim de tudo você permanece comigo,
Mas preso ao que eu criei
E não a mim.
E quanto mais falo sobre a verdade inteira,
Um abismo maior nos separa.
Você não tem um nome e eu tenho,
Você é um rosto na multidão,
E eu sou o centro das atenções.
Mas há mentira na aparência do que eu sou
E há mentira na aparência do que você é,
Porque eu não sou o meu nome
E você não é ninguém.
O jogo perigoso que eu pratico aqui
Busca chegar no limite possível de aproximação
Através da aceitação da distância
E do reconhecimento dela.
Entre eu e você
Existe a notícia que nos separa.
Eu quero que você me veja nu.
Eu me dispo da notícia
E a minha nudez parada,
Me denuncia e te espelha.
Eu me dilato,
Tu me relatas,
Eu nos acuso e confesso por nós.
Assim me livro das palavras
Com as quais você me veste.

(Fauzi Arap)

domingo, 28 de junho de 2009

Descida luz


Quando a alma toca o chão
e tudo em volta é esquecimento
a lua desce e baixa mais que a sua luz
e nada parece ter mais vazios que o coração

É quando a vida parece que já não tem porque ficar
E o botão que condensa o porvir da beleza da flor
já não desperta a esperança de ver a pétala nascer

Eu me calo e palavras são meu vão
Por onde vou sumindo e me escondendo do que um dia fui
Sangro em gotas demoradas meus pensamentos
Que não combinam mais com o que tem que ser

Sei que vou indo derramando o que há de mim por aí
Vou doendo, esvaziando, desencontrando
Não faço sentido
Nem quero fazer

CB

terça-feira, 16 de junho de 2009

Alma Nua

Alma Nua
Vander Lee


Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes

Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor

Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia

Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua

Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima

Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido

De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho

Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta

terça-feira, 5 de maio de 2009

Murmúrio


Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!

Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

(Cecília Meireles)