terça-feira, 4 de agosto de 2009

Paisagem...




Paisagem
Luiza Possi/Dudu Falcão

De longe na paisagem tudo é tão perfeito
Tudo é tão normal
De perto toda coisa linda mostra algum defeito
E eu me sinto igual

Eu e você descobrimos a pólvora
A diferença nos faz tão bem
Somos os mesmos há milhões de anos
Amantes, errantes, humanos!

Eu guardo as lembranças em fotografias
Tudo é de papel
Se eu já soubesse antes, eu te contaria
Sonhos de aluguel

Eu e você já moramos no mesmo céu
Nossas estrelas combinam...
Fomos os mesmos até hoje de manhã
Seus olhos de mar me fascinam...

E agora me conta o que aconteceu
Que eu ando encostando meus sonhos nos seus...

Eu guardo as lembranças em fotografias
Tudo é de papel
Se eu já soubesse antes, eu te contaria
Sonhos de aluguel

Eu e você já moramos no mesmo céu
Nossas estrelas combinam...
Fomos os mesmos até hoje de manhã
Seus olhos de mar me fascinam...

E agora me conta o que aconteceu
Que eu ando encostando meus sonhos nos seus...


(E eu ando colhendo sonhos nos caminhos feitos pelos passos teus... CB)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Eu vou te contar


Eu vou te contar que você não me conhece.
E eu tenho que gritar isso
Porque você está surdo e não me ouve.
A sedução me escraviza a você.
Ao fim de tudo você permanece comigo,
Mas preso ao que eu criei
E não a mim.
E quanto mais falo sobre a verdade inteira,
Um abismo maior nos separa.
Você não tem um nome e eu tenho,
Você é um rosto na multidão,
E eu sou o centro das atenções.
Mas há mentira na aparência do que eu sou
E há mentira na aparência do que você é,
Porque eu não sou o meu nome
E você não é ninguém.
O jogo perigoso que eu pratico aqui
Busca chegar no limite possível de aproximação
Através da aceitação da distância
E do reconhecimento dela.
Entre eu e você
Existe a notícia que nos separa.
Eu quero que você me veja nu.
Eu me dispo da notícia
E a minha nudez parada,
Me denuncia e te espelha.
Eu me dilato,
Tu me relatas,
Eu nos acuso e confesso por nós.
Assim me livro das palavras
Com as quais você me veste.

(Fauzi Arap)

domingo, 28 de junho de 2009

Descida luz


Quando a alma toca o chão
e tudo em volta é esquecimento
a lua desce e baixa mais que a sua luz
e nada parece ter mais vazios que o coração

É quando a vida parece que já não tem porque ficar
E o botão que condensa o porvir da beleza da flor
já não desperta a esperança de ver a pétala nascer

Eu me calo e palavras são meu vão
Por onde vou sumindo e me escondendo do que um dia fui
Sangro em gotas demoradas meus pensamentos
Que não combinam mais com o que tem que ser

Sei que vou indo derramando o que há de mim por aí
Vou doendo, esvaziando, desencontrando
Não faço sentido
Nem quero fazer

CB

terça-feira, 16 de junho de 2009

Alma Nua

Alma Nua
Vander Lee


Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes

Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor

Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia

Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua

Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima

Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido

De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho

Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta

terça-feira, 5 de maio de 2009

Murmúrio


Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!

Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

(Cecília Meireles)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Anjos...


Que existem anjos...
isso eu já sabia...

Que eles são lugar do que é belo...
isso eu já imaginava...

Que eles estão por toda parte...
isso eu desconfiava...

Que anjos podemos ser nós....
isso eu assustei...

Que Deus nos fala através deles...
isso eu duvidava...

Que anjos, mesmo longe, estão cá dentro...
isso eu comprovei...

Eu e meus anjos somos assim...
Eu cuido de precisar deles...
E eles cuidam de eu cuidar de mim...

carla b.

quinta-feira, 12 de março de 2009

mar adentro


sou resposta para o que não tem questão
e meu coração é sol poente
morrendo no horizonte
do caminho que não sabe chegar

asas que se abrem sem ter como voar
levando ao tempo um motivo de não mais seguir
não conheço razão de querer continuar

mas continuo, enfim...
mar adentro, mar intenso dentro em mim
revolto e manso, raso e profundo,
de sombra, luz e calafrio

o descompasso dos opostos que há nos fins
faz entender os passos do caminho
e caminhando vou tecendo a caminhada
e caminhando sigo sendo
e assim sendo, vou seguindo o que sou


(carla balthazar)

sábado, 7 de março de 2009

4º Motivo da Rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


(Cecília Meireles)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.



(Adélia Prado)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Entre Linhas...



De linha, agulha e mãos ligeiras
vou tecendo, costurando...
unindo em fios o desalinho de vida que ficou.

Se me distraio, perco o fio,
furo o dedo e cai carmim.
O sangue que corre é o mesmo que a linha une:
seda rubra que cobre vermelhando a prata da pele.

Feliz ofício que sara e reúne, desvendando um novo
nas partes do que um dia pensava ser um todo.

Se continuo, vou franzindo, rebordando...
fazendo renda do que um dia foi um nó.

Pra colocar botão, tenho que fazer casa.
O que entra, pede ter lugar por onde entrar.

Do meu choro, tiro o tempero e a cor:
pra sorrir assim, é preciso de sal, suor e um pouco de dor

Teço em vermelho, choro em amarelo, sorrio em cores de rosas...
Alinhavo o que falta e retiro o que é excesso, verde musgo e cinza chumbo.
Corto o fio, salgo a carne, deixo o tempo passar.

Continuo, recomeço,
Volto o ponto, desfaço o feio,
Caseio o que há de ser belo.
Vou tecendo entremeados....
De linhas, agulhas e mãos ligeiras,
faço de mim, o meu tear...



(carla balthazar)


O Natal do lado de fora...



Cheguei na Tijuca como quem não queria chegar. Meu coração estava incerto sobre o que aconteceria naquele Natal. Nos últimos três anos havia passado este dia lembrando-me daquele em que o coração da minha mãe resolveu não mais continuar.

Mas agora eu tenho trilhado caminhos de restauração. Assumi o papel que me cabe de protagonista da minha vida. Aprendi com um grande amigo que sofrimentos que não nos impulsionam para frente são inúteis e nada acrescentam em nossa caminhada.

Sofrer é verbo que não se pode deixar de conjugar. Basta viver e já se conjuga este verbo indissociável da condição de ser humano. Bom mesmo é cultivar o sofrimento inevitável no tempo certo, e depois fazer a colheita dos frutos que ele traz. Sempre traz. Eu provei isso na carne.

Neste ano, reconciliando-me com meus enganos, curando-me das dores que antes cultivava, resolvi não passar o Natal em casa. Não teria o menor problema em passá-lo sozinha em casa. Afinal, era por dentro que estava curada. As exterioridades nem sempre acompanham o que vai no coração. Casa cheia não é sinônimo de coração cheio. Aceitei, enfim, o convite tantas vezes negado e fui, sem que pudesse imaginar o que estava reservado para mim.

Carro cheio, ruas cheias de gente indo para suas ceias... Tudo aparentemente tão festivo, tão perfeito. Nada que a sombra das esquinas da vida pudesse alcançar. Quase nada. Fui chegando e ao parar o carro ele já me olhava. Não sabia que me olhava, mas sentia seus olhos cravando meu peito.

Encolhido no vão de entrada da imponente casa que servia à uma empresa, na subida do Alto da Boa-Vista, ele parecia dormir. Mas algo ali estava desperto e me olhava nos olhos. Senti uma inquietação e uma vontade imensa de saber quem era aquele homem. Voltaria para saber.

A celebração do nascimento do Deus menino foi regada a músicas que não condiziam em nada com a mística do significado do momento. Já sabia que assim seria. Jovens embriagando-se sem compreenderem o que estava sendo celebrado ali. Por fim, um momento de oração à custa da indignação da Simone ao ver a indiferença diante do homenageado da noite.

Naquele momento senti vontade de pedir por aquele de quem sequer sabia o nome. A noite passou e não consegui desvencilhar-me daquela cena que se passava ali, tão perto.

Já estava me preparando para ir embora, buscando uma forma de levar algo para aquele que acompanhou minha noite. Foi quando o Guima surpreendeu-me em meu querer e falou: "Eu quero levar alguma coisa para um rapaz que está lá fora". Eu sabia quem era: "Eu sei. Eu também", respondi.


Preparei o prato, sobremesa e refrigerante. O que acontecia ali era maior que aquilo e eu sabia. Sabia que aquele gesto era pequeno demais, mas não me alcançava outro possível. Um prato de comida para uma fome suplicante pode ser tudo. Mas não resolve. É paliativo apesar de justo. Mas também sei que não adianta dizer ao que sofre que aguarde por planos grandiosos para a resolução de todos os seus problemas. O urgente é o que há de ser feito.
A salvação do homem pelo homem começa nas pequenas coisas. Nos pequenos gestos. No prato de comida. Na sopa quente em madrugada fria. Na coberta que dispensa o jornal velho. Nas pequenas e individuais atitudes de quem se compadece e dá o primeiro passo, que junto a outros passos, chegarão a algum lugar.

Fomos juntos, eu e Guima, até o local que já me aguardava desde cedo. A pouca luz do local não impediu minha surpresa. Sob o cabelo longo e a barba espessa, sob as roupas poídas e a coberta que mal cobria, sob a sujeira aparente e a dor que não podíamos ver, revelou-se uma fisionomia jovem, transfigurada pela solidão e sofrimento. Seu olhar, ainda meio adormecido, demonstrava não entender o que estava acontecendo. Por certo, não esperava ceia naquela noite.

Com misto de vergonha e educação ele sentou-se acolheu os alimentos que levávamos.
- "Obrigado."
- "Você não tem família, rapaz?" Perguntou meu amigo Guima.
- "Não tenho ninguém aqui. Sou do Espírito Santo."

Um silêncio se fez e em meu coração cresceu uma vontade de saber mais sobre aquele homem. O que o levara até aquele momento. Até aquela calçada. Saber sobre os sonhos que ele viera colher no Rio de Janeiro e que deixara pelos caminhos da vida. Mas calei.

Nos despedimos e quando já retornávamos à casa, resolvi voltar ao homem.
- "Moço, como é mesmo o seu nome?"
- "Marcos. Eu me chamo Marcos."
- "Marcos.... nome bonito. Nome de Apóstolo de Cristo." Foi só o que consegui dizer.

O sorriso que não viera diante da certeza da fome saciada veio agora timidamente. Sua felicidade transbordou diante da minha simples pergunta. Marcos não falou mais nada. Nem eu. Não foi necessário.
Tive ali a certeza de que, para aquele homem, o verdadeiro presente da noite foi alguém perguntar o seu nome. Quantas vezes ele foi chamado pelo nome depois que a vida o colocou naquela situação de indigência? Quantas vezes alguém se interessara em saber? Certamente não muitas.

Nossos passos corridos do dia-a-dia acostumamo-nos com a miséria do outro. Passamos diversas vezes diante de seres humanos jogados em calçadas e becos e fingimos não ver. A pressa e as responsabilidades cotidianas são boas desculpas. Quando nos permitimos notar sua presença ali, os encaramos como um estorvo, como um incômodo dejeto social, como fracassados ou incapazes. Esquecemos que eles têm um nome, que têm uma história.

Acredito que o sorriso do Marcos foi maior para ele mesmo. Aquela pergunta, saber o seu nome, foi como se ele tivesse se recordado de sua identidade. Foi como se, de repente, ele tivesse sido transportado novamente à dignidade humana um dia perdida nas ruas. Foi como se tivesse ficado feliz por ter se lembrado de quem ele é.

Voltei para a festa mas permaneci naquele momento. Finalmente entendi porque Deus havia me conduzido até aquela casa. Encontrei-o no sorriso daquele jovem. Fiquei feliz por estar ali.
Neste Natal, não recebi nenhum presente, não falei com muita gente. Mas o que Deus me proporcionou ficará guardado em mim. Marcos nunca saberá, mas ele foi o melhor presente que eu poderia ter recebido.


O melhor Natal não estava na ceia, não estava nos presentes, nem na alegria das crianças. O melhor Natal, me aguardava onde ninguém queria estar... do lado de fora.



meu amigo... mesmo com todas as distâncias que impossibilitam a proximidade... vc está sempre por perto... pelo meu carinho verdadeiro, pelo que me leva à restauração do meu viver, pela beleza acalentadora da sua palavra... palavra que chegou qdo estava terminando este texto... e me deu a certeza de continuá-lo...

cada dia mais, agradeço a Deus p vc existir em minha vida...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Hoje eu sei...


Ele chegou sem pressa de ir embora. Sentou-se ao meu lado e lamentou cena tão incompatível. Como podia, eu ali, diante da eternidade que era minha por herança, fazendo do tudo recebido, um nada abandonado.

Acariciou meu rosto molhado e secou as lágrimas insistentes. Ouviu meus rancores, minhas dores, meus horrores.

Não levantou-me de pronto. Primeiro acolheu-me em seu colo, recostou-me em seu ombro e envolveu-me com sua paz.

No chão dos meus pecados o Salvador se inclinara para que pudesse me alcançar. Depois ergueu-me num abraço demorado e conduziu-me pela mão. Paciente, relevou minha demora e inundou-me de amor.

Não que eu quisesse paz. Não que eu quisesse colo. Não que eu quisesse amor. Queria, antes, a solidão da desesperança que havia.

Mas isso não importa ao coração de um Pai.
Antes da vontade, vem o bem querer.
Antes de mim mesma, veio o Seu amor.

E a Sua luz se fez brilho em meu olhar.
Certeza de ser quem sou, quando eu me esqueci de ser alguém.
Certeza de chegar, quando eu não sabia continuar.
Certeza de ser feliz, quando eu só sabia duvidar.
Certeza de ser amada, quando eu não sabia mais amar

Amor que me invade e me devolve
Olhar que me acalenta e faz curar
Voz que me reconduz e que me diz:

"Filha, eu sempre estive aqui...
E nunca te abandonarei..."

Hoje, Pai...
Hoje eu sei...

carla b.

Artifícios

Artifícios

O ressonar sereno da palavra que repousa
é a afirmação precisa de que a vida segue viva.
Afoita, calada, pronta, inacabada,
não se permite amordaçar
pela ameaça do tempo.
Passa, deixa, leva, traz. Não importa!
Viver é conjugar o possível verbo,
que se insinua sem docilidade
e se apodera da contingência existencial do infante poeta.
Dores e ausências são matérias cotidianas.
Alegria, por vezes.
Se vier mais freqüente, a poesia se vai...
Melhor que se esconda por perto,
caso seja solicitada,
para que esteja à mão, sem estar.
Ela substitui a palavra, amordaça o verbo,
desaponta a caneta, tempera o poeta.
A sobriedade é raiz fecunda,
projeto válido para quem deseja o fundo
e não se contenta com a primeira fala.
A força contrária desenvolve heróis...
A força da fala revigora o gesto.
Palavras são artifícios da alma.
Diz quem quer... fala quem pode.



Pe. Fábio de Melo
Do livro "Tempo: Saudades e Esquecimentos"

A quem interessar possa

a palavra chegou depois
foi só ontem
que ouvi o que foi dito
estava lá
mas não estava
Deus sabe o porquê

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

São Paulo, 40°


Estranho como a fragilidade da matéria nos impõe, quase de imediato, a fragilidade da alma.

O que ontem era insuportável, hoje dói para curar, amanhã levanta e segue adiante.

Arder em febre e o frio que dá, remete o corpo à sua inutilidade desconcertante, ainda que passageira. Faz-nos lembrar da nossa pequenez humana, e nos dilacera diante de algo que sequer conseguimos ver a olho nú.

Mas, felizmente, aprender a olhar a vida com os olhos nús tem suas vantagens. Assim, podemos ver sabedoria até nas dores dos dias viróticos.

Coisa boa é o silêncio que há. Ter que passar várias e várias horas sem falar, sem a obrigação de pensar palavras ordenadas e dizê-las mesmo quando as queremos ocultar, pode ser um santo remédio para as dores da alma. Melhor ouvimos o coração quando silenciamos a boca.

Outra coisa que pode ser boa é a dor que dói em todo o corpo e nos limita os movimentos. Ela nos autoriza a estar na cama às 11 da manhã sem que tenhamos que nos perder em explicações de agenda. Leseira só é permitida quando é doída.

Mas para essas dores... as do corpo... não cabe o silêncio imperativo e oportuno... essas ainda precisam de palavras ditas... vitamina C, paracetamol, mto líquido e cama.

E vick vaporub... pq (já dizia o poeta) dormir com nariz entupido é a própria materialização do inferno, que deve ter cheiro de vick vaporub...

[noites mal dormidas têm cheiro de vick vaporub...]